As joias e as mudanças contemporâneas

por Regina Machado

 

No ambiente do consumo, as quantidades dos materiais raros e preciosos também não definem mais, sozinhas, o valor das mercadorias. As mudanças são muitas, têm acontecido rapidamente e a soma delas produziu rupturas importantes no sentido do que é belo e do que é precioso nos nossos dias. Muitos fatores atuam simultaneamente nessa equação e os consumidores sentem insegurança na hora das suas escolhas.

Joias com diamantes podem ser usadas de dia? Podemos usar brincões e óculos? O colar tem que acompanhar o modelo do decote? Podemos misturar num mesmo look peças com ouro branco e peças com ouro amarelo? E as bijuterias? Podemos usá-las em conjunto com algumas joias?

A permanência dessas dúvidas entre os consumidores surpreende aqueles que, como nós, já assimilaram todas as possibilidades criativas disponibilizadas com a inauguração das misturas high-low há mais de uma década.  

Neste ambiente, é fundamental investir no diálogo entre os criadores dos produtos e seus consumidores. Precisamos reunir as narrativas entre os setores da moda e da joalheria na criação de uma linguagem que comunique um sentido mais claro sobre a qualidade do design e as possibilidades de uso dos nossos produtos.

Muitas vezes usamos uma linguagem poética, mas pouco didática, na comunicação dos lançamentos e, assim, nem sempre conseguimos explicar claramente os novos conceitos trabalhados pela criação dos objetos.

O desejo por inovação do sistema da moda acabou por produzir uma comunicação divertida e chique, mas blasé; sofisticada, mas muitas vezes hermética; que inibe e pouco explica os seus movimentos de ruptura com os antigos parâmetros de valor. A rapidez com que descartamos as pautas da moda, os temas e as cores das tendências, se tornou um problema comunicacional para os novos lançamentos, que parecem envelhecer mesmo antes de serem entendidos e comercializados.

No entanto, os consumidores têm demonstrado interesse, querem entender as novas possibilidades e têm buscado informações em várias instâncias. Como exemplo, basta darmos uma espiadinha na quantidade de seguidores que buscam os conteúdos publicados pelos chamados influenciadores da internet. Lá encontraremos, na grande maioria das vezes, dicas simples, mas curtidas por milhões de pessoas e que nós, ‘povo da moda’, imaginávamos já terem sido totalmente assimiladas e desnecessárias novas explicações.

Mais do que nos apressarmos para sermos os primeiros a divulgar uma novidade, deveríamos ter certeza de que as mudanças realizadas anteriormente já foram compreendidas e que não restaram dúvidas importantes, que acabariam por impossibilitar o entendimento do sistema da inovação, cada vez mais complexo neste final da segunda década do século XXI.

A nossa fala, a de quem cria e a de quem comercializa, faz parte do produto. A comunicação é parte constituinte do capital encantatório das mercadorias. Se usarmos todas as instâncias comunicacionais disponíveis – do storytelling às técnicas do visual merchandising – os valores de nossos produtos poderão ser percebidos. Neste ambiente onde o parâmetro quantitativo foi substituído por critérios imateriais, não existem produtos caros, apenas produtos cujos valores não são percebidos.

Para além das fugacidades das tendências, as séries de pequenas mudanças acabaram por produzir grandes mudanças de comportamento. O novo século está conseguindo implementar inovações não mais nas formas e nos temas, como na Era Moderna, mas efetivamente nos conceitos fundamentais dos produtos. Hoje, os indivíduos contemporâneos já assimilaram os novos valores morais do consumo e buscam expressar as suas visões de mundo por meio de suas escolhas.

Os consumidores conscientes são a verdadeira novidade, a nova tendência e o nosso maior desafio. Cada vez mais pessoas são influenciadas por conceitos como ‘economia circular’, ‘joalheria responsável’, ‘capital cultural’ e ‘negócios com propósito’.  A tomada de consciência com relação aos valores éticos, sociais e sustentáveis é uma realidade do nosso tempo. Esses valores são comunicados rapidamente pelos formadores de opinião em todo o mundo e influenciam as escolhas de um número cada vez maior de consumidores.

A AJORIO, em sintonia com o pensamento do nosso tempo, investe no sentido de futuro da joalheria carioca e convida a todos os que participam do setor joalheiro para que, juntos, possamos reunir ideias, pensamentos e ações na formação de um movimento de renovação dos sentidos da beleza e da qualidade de nossos produtos.

O projeto ‘As Joias Não Viram Lixo’ é só um passo nesta direção.

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