Comportamentos: de onde viemos e para onde estamos indo

Por Regina Machado


Após o término do Movimento Moderno, as mudanças continuaram fazendo rolar as pedras fixadas pelas tradições, mas, no entanto, não chegaram a mudar o curso das águas e têm produzido mais continuidade no veio da moda do que rupturas. As vanguardas modernas hoje nos ensinam os caminhos que percorreram na busca pela inovação nos mais importantes museus do mundo. O Victoria and Albert inaugurou, em Londres, uma super exposição de Mary Quant, criadora inglesa que inaugurou o conceito de uma moda jovem, não de jovens adultos, e fez sucesso com a inovação dos costumes representada, iconicamente, pela mini saia na década de sessenta do século passado.

Faz tempo que novidade, mas novidade mesmo, a gente produz com as mudanças realizadas por meio das ‘ressignificações e misturas’ com o que já foi criado. Hoje retrabalhamos continuamente as possibilidades narrativas das formas, dos temas e dos estilos dessa linguagem.

Por meio desses recursos criativos dessacralizamos a fé e a tornamos fashion, libertamos o preto da tristeza do luto e hoje o pretinho se diverte nas noites e nos dias das cidades. Os diamantes não temem mais a luz solar e frequentam as academias suportando todo o suor na perda das nossas calorias. Até mesmo as gemas super poderosas - como as esmeraldas, rubis e safiras, sem contar o frisson que causam as turmalinas Paraíbas - produzem verdadeiros upgrades conceituais nos estilos pessoais e circulam em parceria com os jeans rasgadinhos em todos os ambientes do luxo. Aquele sinal de que ‘alguma coisa me diz que você é tudo’ continua funcionando.

Hoje a moda não nos impõe mais regras e libertamos o nosso corpo, a nossa idade e o nosso sexo de todos os padrões binários. Opções do tipo ‘gorda ou magra’, ‘feminino ou masculino’, ‘velho ou jovem’ não mais definem as nossas escolhas e os nossos estilos. Estamos por aqui transitando as nossas certezas junto com as do nosso planeta.

Neste contexto de mudanças, o presente ganhou uma dimensão existencial nunca antes experimentada. Atualmente o dia a dia se tornou o tempo de realizações e não mais um devir, um enquanto ..., um tempo em que projetávamos e esperávamos o futuro. Essa trajetória de presentes fugazes produz saudades. Hoje olhamos com carinho para o repertório que ficou para trás e buscamos, nas muitas releituras dos estilos, curtir mais um pouquinho com o que já foi vivenciado. Nostalgicamente buscamos relembrar o que sentimos e assim aprendermos um pouco mais sobre nós mesmos.

Vivemos numa sequência de revivals, de misturas e citações, mas, como destacou a sabedoria do filósofo grego Heráclito ‘um homem não toma banho duas vezes no mesmo rio’ ou, muito mais recentemente, a síntese pop de Lulu Santos confirmou que ‘nada do que foi será’.  O sentido das coisas depende da experiência de quem as vivenciou e o ser humano é uma entidade viva em permanente mutação cognitiva, se ele muda o sentido do que ele vive muda com ele.

Casual Chic, Hi-Lo, Lady Like, são conceitos que ainda funcionam, mas possivelmente com outros nomes. A invenção da comunicação da inovação faz parte da vocação fashionista. Basta pesquisar a exuberância criativa dos nomes das cores de esmaltes para as unhas.

As cores assim como os estilos podem ser reintroduzidas num imaginário totalmente diferente e nos proporcionar novas sensações, memórias e experiências. A cor pode ser praticamente a mesma e ser percebida de forma inovadora. É o caso do bege, sempre tão sem graça - o bege remete às cores dos produtos pós cirúrgicos, meias de compressão, cintas, bandagens – mas quando se torna ‘nude’ a cor muda completamente o seu sentido e se transforma numa cor sensualíssima. Podemos citar também outro caso exemplar, o cinza. O que nos resta de bom quando lembramos do nome ‘cinza’? Cigarro, fumaça, poluição, incêndio, esse imaginário não nos inspira boas emoções. Mas já ‘funghi’, quase a mesma cor, faz parte de um dos ingredientes totalmente ‘do bem’ da gastronomia, é cool e até os veganos podem curtir.

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